Translator

RITUAIS E CONVÊNIOS

Cesóstre Guimarães de Oliveira
cesostre@hotmail.com
 
Desde o primórdio de nossa existência, independente dela ser justificada por Charles Darwin ou a Bíblia, temos realizado rituais para estabelecer uma ideia ou explicar uma doutrina religiosa. Esta afirmação é confirmada pela repetitividade dos símbolos (inclusive rupestres), palavras e gestos adotados pelas religiões quando transmitem seus ensinamentos litúrgicos. Para as entidades religiosas, a escolha de um ritual, como forma de instrução, a muito foi provado ser uma excelente idéia. A prática repetitiva, a alegoria dos símbolos e sinais sendo facilmente absorvidos pelos fiéis, é prova suficiente de que esta é a melhor didática que poderiam ter adotado.
A presença dos rituais no contexto religioso, assumiu papel tão marcante que em determinados momentos o ritual se confunde com o alvo da devoção. Fazendo com que, ao acontecer esta mistura, a religião seja obrigada (por suas próprias regras) a rotular com novo nome suas práticas rituais, e ao proceder assim, sentindo a necessidade de se uustificarem, os pais da religião alegam que as mudanças só ocorreram por que o novo nome “é mais adequado”, e dizem ainda que a nova nomenclatura retrata com mais fidelidade a doutrina da instituição. (...) é neste momento que o ritual da iniciação vira batismo, o natal do deus Mitra vira o Natal de Jesus Cristo. Por isso, a expressão ritual, agora marginalizada, proscrita cai no desuso, assumindo novo nome, (...) passa a ser convênio, catecismo, liturgia, e outras expressões sinônimas, deixando-nos a impressão de que apenas tentarem dar nova roupagem ao velho, mas ignoram que este procedimento somente cria um novo tabu religioso.
Ao pesquisar, ficou claro para mim que existe nos cristãos "conservadores" o inegável desejo de rejeitar a ideia de rituais no cristianismo, para eles ritual é uma prática exclusiva do paganismo, que por tabela passa a ser uma prática satânica. Por essa razão, tentar convencer um membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que a rotina mórmon no interior do templo sagrado, também é um ritual é uma tarefa perigosa e difícil. Tentar explicar essas coisas para alguém que aprendeu (ou aprende) por osmose é andar em círculos, já que muitos são os que realizam (e vão realizar) a rotina ritual do templo até que a morte lhes chegue, sem entender por que o fizeram. É logico que existem os "mais" esclarecidos, são pessoas que entendem o verdadeiro significado das expressões, são os individuos que buscam e encontram o entendimento oculto no estudo e na interpretação dos textos, porém até mesmo entre estes existem aqueles que por zelo a doutrina, ao lerem meus escritos, na melhor das hipóteses vão me rotulará de apóstata.
Embora suas ações digam o contrário, os discípulos da osmose não são culpados de seus equivocados julgamentos, eles não passam de pobres infelizes condenados a obediência e a subserviência onde tudo se explica com "sim senhor, não senhor". Em sua débil compreensão da doutrina e da verdade, eles pensam estar defendendo os convênios sagrados, ignorando que convênio, (de acordo com o livro de Mórmon), é o pacto, um acordo firmado entre Deus e o homem, em nada se referindo aos símbolos e sinais que aprendemos no ritual sagrado, que tem a unica função de nos fazer lembrar quem somos e quais são nossos compromissos.
Infelizmente, para a maioria de nós, a idéia de um ritual sempre será associada ao mal, tornando o simples uso da expressão uma prática inaceitável quando referida ao templo sagrado.
Algumas linhas acima lhes citei exemplos de práticas rituais na religião, porém, além das citadas, existem outras que são mais comuns aos sistemas religiosos, inclusive posso citar a genuflexão, um procedimento comum aos adoradores de todos os credos, o jejum, a santa ceia (em se tratando de nós mórmons: o sacramento”), o compartilhar de um testemunho, o uso de roupas especificas, tudo isso é ritual, e estão presentes em nosso cotidiano, de tal forma fazendo parte de nós que na maioria das vezes os realizamos sem ao menos perceber.
Porém nem todos os rituais estão diponíveis a "qualquer um". Existem aquelas práticas mais complexas, que estão reservadas a um grupo seleto de iniciados, como por exemplo, os rituais do templo mórmon e da Maçonaria. Em se tratando da Igreja, o sigilo é explicado pela necessidade de proteger o significado sagrado dos símbolos e convênios firmados entre Deus e os humanos. Na Maçonaria o sigilo é apenas fruto da necessidade de preservar intactos rituais milenares, que embora não sejam sagrados do ponto de vista religioso, tem seu valor intimo.
Já que estamos falando de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em sua relação com a Maçonaria, farei breve citação de suas origens, embora isto não tenha relação direta com a explanação sobre rituais:

1. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (ou Igreja Mórmon, como é mais facilmente identificada), reclama o direito de ser reconhecida como a restauração da antiga doutrina do Cristo que fora desvirtuada. Os relatos oficiais marcam o ano de 1820 como o momento do inicio de várias visões atribuídas a Joseph Smith. A origem histórica e religiosa do mormonismo tem defensores e acusadores enfileirados em ambos os lados da crença, porém são as afirmações do próprio Joseph que põe mais lenha na fogueira, quando relata sua epifania (History of the Church, Volume I, capítulos de 1 a 5). Ele diz, e eu creio ser verdade, que foi no momento da primeira visão que recebeu do próprio Eloin instruções de que não deveria se filiar a nenhuma das igrejas existentes, pois ele conduziria o trabalho de restauração da antiga doutrina de Jesus Cristo. Imaginem seu conflito interno, pois já neste momento sua mãe, Lucy, seus irmãos Hyrum e Samuel Harrison e sua irmã Sophronia haviam abraçados a doutrina presbiteriana, (para maiores detalhes, vide no Livro de Mórmon, Joseph Smith – História).

2. A Maçonaria é uma instituição religiosa (não confunda com religião) de caráter iniciática, filosófica, educativa, filantrópica e progressista, que por ignorância e despeito dos opositores é acusada de ser uma religião contrária ao cristianismo, é logico que não existe procedência nesta afirmação, pois ela não exige do neófito que abandone sua crença para ingressar em suas fileiras. No que se refere sua origem, este é um mistério ainda não decifrado, nem mesmo pelos maõns que afirmam deter o conhecimento que explica de onde viemos. Provar como e onde aconteceu o nascimento da Maçonaria é uma quimera perseguida por pesquisadores que necessariamente não são maçons. As lendas, frutos das especulações das mentes ferteis, sobejam na mesma proporção que crescem os livros “especializados”. Encontrar “pesquisadores” desejosos em receber o premio máximo desta descoberta é fácil, basta seguir o clarão dos holofotes e brilho dos flashes nos lançamentos de livros sensacionalistas. Porém, a verdade perdida, a origem desta singular instituição, permanece sem ter seu encontro com a verdade. O Maçom Edson Rocha, em seu artigo publicado na revista Universo Maçonico, afirma que "das duzentas obras publicadas antes de 1909 consagradas a Franco-Maçonaria, 28 autores determinavam a sua origem no começo da Idade Média;  05 às Cruzadas; 12 aos Templários; 09 à Roma Antiga; 07 ao Gênesis; 06 aos Judeus; 18 ao Egito; 03 ao Dilúvio e 15 à Criação do Mundo" (http://www.revistauniversomaconico.com.br/forum-livre/o-comeco-oficial-da-maconaria-moderna/), penso que depois deste periodo as lendas aumentaram bastante, mas como não tenciono lhes “empurrar goela abaixo” um longo tratado sobre cada uma das possíveis origens da Maçonaria, fruto da imaginação fértil de algum maçom apaixonado pela fraternidade, compartilharei apenas as três que considero mais comuns.

2a. A primeira lenda, (entenda como minha preferida), a mais romântica de todas, que inclusive tem presença marcante no ritual maçom, de tal forma que se fosse retirada, teríamos muito trabalho para reescrever a Maçonaria. Diz a Bíblia que em 960 a.C o Rei Salomão iniciou a construção do mais famoso de todos os templos já dedicados ao Grande Arquiteto do Universo, e a lenda segue afirmando que foi no interior deste templo que as bases da Maçonaria foram lançadas.

2b. A segunda lenda identifica Ninrod, o idealizador da Torre de Babel como o pai da Maçonaria. Na Bíblia, Ninrod aparece como sendo filho de Ham e descendente direto de Noé. A lenda diz que ele foi o primeiro Mestre Maçom, e talvez por esta razão os maçons anteriores a 1717 em alguns documentos são chamados de "Filhos de Noé". Sem entrar em muitos detalhes a lenda alega que após idealizar a Maçonaria e iniciar a construção da Torre de Babel Ninrod iniciou diversos operários enquanto supervisionava a construção.

2c. A terceira lenda, toda pomposa, feliz com suas alegações, reclama ser a única apoiada pela história, e é defendida até mesmo por alguns maçons, mas não passa de uma aberração literária, pois se contradiz em suas afirmações quando alicerçada na arrogância dos historiadores nos premia com dia, mês e ano para o surgimento da Maçonaria, (24 de junho de 1717), e é neste ponto que comete seu maior equivoco, pois ignora que esta data tão somente marca o ano em que três Lojas Maçônicas “já existentes” (sic), se juntaram para fundar a Grande Loja da Inglaterra.

Conforme lhes disse antes, a origem da Maçonaria é uma incógnita, e como não pretendo rodar loucamente em circulo como o cachorro que corre atrás do próprio rabo, deixo a loucura desta procura aos historiadores sedentos por notoriedade. Então voltemos ao foco deste texto, que é o uso de ritual como forma de transmissão de uma ideia. A manutenção de um ritual é a singular característica tanto do mormonismo quanto da Maçonaria, e torna inegável que entre as duas instituições há uma relação de parceria, no que tange seus objetivos. Porém, tentar explicar essa relação é tarefa complicada, é um verdadeiro desafio, muitos já tentaram sem sucesso colocar na mesma folha de papel, lado a lado, o mormonismo e a Maçonaria. É provável que a falta de sucesso deles se deva a repulsa e o temor demonstrado por alguns irmãos mórmons, para quem a simples sugestão de que o mormonismo possa ser comparado à maçonaria é uma ofensa herética. Para eles a Maçonaria não é um bom lugar para um mórmon estar, inclusive se esquecem de que foi no coração desta instituição que nossos primeiros líderes tiveram suas primeiras instruções sobre rituais. O desconforto que demonstram quando alguém ousa comparar o mormonismo a Maçonaria, torna o trabalho de resgate de nossa história em sua ambiguidade com Maçonaria, uma tarefa difícil e antipática. Volta e meia, alguém solta uma perola, e diz: “não perca tempo com isso, não é importante”. (...) mas, eu sou obstinado, porém sem deixar de ser coerente, rebusco a verdade onde quer que ela esteja, (não é assim que deve ser?), pois sei que é meu dever, quando membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, procurar e conquistar “(...) qualquer coisa virtuosa, amável, de boa fama ou louvável (...)”. Tentem imaginar minha tristeza ao descobrir que a cada nova publicação, páginas inteiras se tornaram um único parágrafo, parágrafos inteiros se tornaram algumas linhas e linhas inteiras desaparecem de velhos manuais. Certa vez alguém querendo me consolar ou justificar o sequestro das informações, (confesso que não sei), me disse:
- “(...) por que deveríamos dedicar páginas inteiras dos manuais da Igreja para tratar da iniciação maçônica do profeta Joseph Smith, qual a relevância disso?”
- Nenhuma!
(...)
A quantidade dos que voluntariamente decidem esquecer a iniciação maçônica de Joseph Smith, já que não podem ignorar, é surpreendente se comparada aos “que decidem resgatar a verdade”. Mesmo assim, pesquisar para traçar elos que liguem o mormonismo a maçonaria em alguns momentos se assemelha a um crime hediondo. Muitos são os líderes interrompidos, que não instruídos corretamente, mantem a Igreja em posição antagônica a Maçonaria, fechando portas e janelas, obrigando as duas instituições trilharem caminhos diferentes. Nesta diáspora, em uma das extremidades se encontra a Maçonaria, caminhando sua estrada sem fim, de braços abertos para os mórmons, pergunta: “filhos até quando permanecereis em ignorância?”.
Na outra extremidade se encontra o mormonismo, que em sua agonia por se livrar da dualidade, busca conquistar a simpatia dos cristãos protestantes, não medindo esforços para desinformar e fugir de seu passado com a Maçonaria, que foi tão bem representado pelo profeta Joseph Smith.
(...) Pai nosso que estais no céu (...) protegei nossos rituais, protegei nossos registros antigos, únicas provas de que Joseph Smith, Brigham Young, John Taylor, Wilford Woodrof e Lorenzo Snow fizeram a coisa certa e são bons exemplos a serem seguidos, mesmo que os paletós e as gravatas digam o contrário. Não permita Grande Pai que a verdade desapareça, não permita que a ignorância se sobreponha ao conhecimento, não permita que a iniciação maçônica de tantos líderes do mormonismo se torne mais uma lenda maçônica.

3 comentários: