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UMA QUESTÃO DE FÉ

Cesóstre Guimarães de Oliveira
Cesóstre@hotmail.com

Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem
Hebreu 11:1


      “Ser Mórmon, é abraçar algumas crenças estranhas para a maioria das pessoas”. Esta foi á resposta que um membro antigo da Igreja, contrário a nossa associação com a Maçonaria, me apresentou quando lhe perguntei se ele realmente sabia o que era ser Mórmon? Ao lhe perguntar, apenas desejava saber em que nível de compreensão doutrinária ele se encontrava. Com esta resposta simples, mas, estranha para um mórmon, ele me deixou momentaneamente desconcertado, pois não esperava encontrar nele, os sinais do temor que habita na cabeça de alguns menos esclarecidos.
Mas ele não é uma exceção, os que denominam a si mesmos de “esclarecidos”, em alguns casos, por haverem parado de questionar, ou por não mais pesquisar os fatos, estão mais propensos a certas conclusões duvidosas. Nas próximas linhas estarei fazendo algumas afirmações que provavelmente alguns de vocês irão discordar. Porém, a falta de unanimidade, neste caso, é um mal necessário, pois só assim, discordando, tentaremos validar nossos pensamentos, para que nos aprofundemos nas verdades que defendemos. Então, antes das conclusões precipitadas, respondam ao seguinte questionamento: como reagem seus amigos, [aqueles que não são membros de nossa religião], quando, [se], lhes dizem que a meta principal de um mórmon é tornar-se um deus? Não vale usar o velho argumento defendido por alguns ineptos que afirmam ser este um tema da doutrina profunda, e sobre isto não falam.
      Apenas para esclarecer, aviso, este texto não é sobre a doutrina Mórmon, se faço menção dela no início, é para justificar minha resposta à mensagem de um afoito e feroz “defensor” do mormonismo, que ao se pronunciar contra nossa associação com a Maçonaria, disse: “caro irmão, modere seu linguajar [?], não suporto mais seus textos na internet difamando o profeta, talvez não seja sua intenção, mas, em vários momentos você parece desejar nos combater” [...]. Confesso que fiquei chocado com essas palavras, não consigo imaginar de onde ele extraiu idéias tão estapafúrdias, quem será que o convenceu de que pretendo desconstruir verdades que considero sagradas e eternas?
Muitos de vocês não sabem, mas, eu e minha esposa, com nossos quatro filhos, somos uma família eterna. Que eu sou um mórmon convicto [converso á 21 anos ininterruptos], que durante dois anos manteve um filho na missão de proselitismo. Que tem três filhas, sendo as duas mais velhas casadas e seladas no templo, com missionários retornados. Que é parte de nosso conjunto de fé, aceitar sem ressalvas, como verdade eterna a doutrina de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sendo assim pergunto: como pode alguém ousar me acusar de tentar destruir a Igreja do Salvador Jesus Cristo?
      Caros irmãos, entendam que minha luta não é contra a doutrina, mas, sim, contra os achadores de verdades. A estes sim, tenho declarado guerra, luto contra os mágicos da “achologia” que extraem de suas fantasiosas cartolas mágicas interpretações não respaldadas pela doutrina e pela história, apenas por que as entendem ser a verdade.
É verdade que estou em guerra, mas esta é uma guerra deflagrada contra o preconceito que nasce no mais profundo e obscuro poço da ignorância. Não me confundam com os pretensiosos, porém, minha batalha é por levar luz [conhecimento] às mentes limitadas que deixam de usufruir do prazer do acerto, apenas por temer o erro.
      Entendo e aceito como razoável, que algumas pessoas não influenciadas pela luz de Cristo “não possam distinguir o bem do mal” [3], e que por estarem limitadas a este estágio da vida em que se encontram, fiquem arrepiadas com a simples sugestão de que alguém possa acreditar na possibilidade de torna-se um deus. Mas, não tolero, não considero razoável que um Mórmon seja colocado à margem do caminho, apenas por que aceitou ver a luz que brilha na relação mórmons maçons.
      Agora, nesta parte do texto, tentarei conduzir meu leitor a reflexão, desta vez sobre crença e descrença. Pois penso que somente entendendo este paradigma, poderemos conversar sobre a relação do mormonismo com a Maçonaria. Relação esta, que hoje mais que antes é um tabu que tem afastado da mesa das discussões, e das escaladas hierárquicas, qualquer um que ouse declarar publicamente que sua mãe é uma viúva. Como explicar o inexplicável? Como dizer, sem magoar, que aqueles que culminaram ao ápice da pirâmide, hoje, sentem verdadeira ojeriza pela maçonaria?
Seria medo?
      [...], medo de que?
      Talvez este temor de origem desconhecida um dia explique o porquê da existência de tanta intolerância, o porquê da existência deste sentimento que tem marcado um “X” na testa de cada mórmon maçom, nos impedindo de chegar ao zênite desta “cadeia de apoteoses”. Talvez um dia, mesmo nas entrelinhas, alguém faça uma nova declaração que corrija esta vergonhosa injustiça que é cometida pelos mais esclarecidos.
      Mas, enquanto este dia não acontece, estarei escrevendo, descobrindo e revelando, que nem todos estão dispostos a permitir que algumas verdades, agora inconvenientes, sejam expostas. E, se as exponho, não faço isto por vaidade ou rebeldia, mas, sim, por que as escolhas que fiz não me permitem aceitar ser contado com os omissos e os deturpadores. Entendam que o conhecimento é uma dádiva divina, e que “ha quem muito for dado, muito será requerido” [2]. Saber disto gera em mim a responsabilidade de querer antecipar minha prestação de contas. Mas, contraditoriamente, nesta contabilidade de tomadas de decisões, o preço a ser pago por investigar, e tornar publico, fatos que uma minoria maior, prefere manter escondido, algumas vezes tem o tom da tristeza e do abandono. Por estas, e outras, razões, torna-se quase impossível encontrar um mórmon maçom, que afirme aos não lavados no mar de bronze, que em algum momento de nossa história fomos influenciados pelos rituais da Maçonaria, ou até mesmo demonstre aceitar como verdade, que logo após iniciado Maçom, o profeta Joseph Smith intencionalmente adequou certos rituais à nossa necessidade. Abraçar esta bandeira pode significar a escolha por uma trilha solitária. Inclusive, em alguns casos, isto significa suicídio religioso, e como não me encaixo no perfil dos suicidas, e para não ser confundido com um apóstata, vocês não encontrarão nenhuma destas afirmações em meus textos.
      Nos seguidos anos em que venho escrevendo e publicando, tenho colecionado várias mensagens de críticas e apoios. Recentemente, analisando algumas destas, concluir que entre os discordantes existe uma regra básica, eles costumam deixar vazar pelas entrelinhas seus medos, dentre os quais, destaco o temor de que seja verdade aquilo que dizem sobre o profeta Joseph Smith haver plagiado os rituais da Maçonaria. Apenas para que melhor me faça compreendido, dividi os que me escrevem em três blocos, vejamos a seguir:

a) No primeiro bloco tenho relacionado todos os meus irmãos mórmons que negam qualquer possibilidade de haver uma relação entre as duas entidades. Para eles, se existir uma única semelhança, esta é fruto do acaso, ou em segunda hipótese, é um plágio das “coisas de Deus” realizado por algum dos maçons operário do templo de Salomão. Para validar este pensamento, eles costumam se apoiar na seguinte citação: “nós temos a verdadeira Maçonaria. A Maçonaria de hoje foi recebida da apostasia que ocorreu nos dias de Salomão e Davi. Eles têm uma ou outra coisa correta, mas nós temos a coisa verdadeira” [1]. Os defensores desta constrangedora teoria, constantemente apontam a Maçonaria como uma organização antítese das “coisas de Deus”. Eles dizem; “a Maçonaria é uma instituição que tenta desvirtuar os símbolos sagrados do templo tornando-os comuns a todas as pessoas”.
Concluo que talvez procedam assim por pensarem que, se, o profeta Joseph Smith copiou a Maçonaria, isto automaticamente torna suas reivindicações como profeta, inconsistentes com a verdade.

b) No segundo bloco estão alistados todos os mórmons maçons e ou simpatizantes, é neste que me enquadro. As pessoas que se encontram neste bloco deveriam ser vistas como aqueles que já se despiram do preconceito, da ignorância moncosa, que tendo recebido a luz, agora são livres, não permitindo que sua [nossa] fé seja atingida negativamente pela possibilidade do racional, do profeta haver lançado mãos do bom e do belo, e os haver transportado para a doutrina mórmon como forma de auxilio para explicar o sagrado. Para validar este pensamento recorro a 13º Regra de Fé que diz “... se houver qualquer coisa virtuosa, amável, de boa fama ou louvável, nós a procuraremos”.

c) No terceiro e último bloco, estão alistados todos aqueles que combatem o mormonismo, que concentram suas ogivas bélicas, na direção de qualquer semelhança que ratifique suas afirmações maldosas. Sua principal fonte de motivação é o desejo de garimpar provas que comprovem a certeza que têm, de que o profeta Joseph Smith agiu para atender suas necessidades pessoais, quando, [se], lançou mãos dos rituais da Maçonaria para explicar a doutrina Mórmon. Agindo desta forma eles pretendem privar o profeta do benefício da inspiração divina, pois pensam que se conseguirem realizar este intento estão destruindo o mormonismo.

      Sei que tentar explicar aqueles que me escrevem, ou dividi-los em grupos, não encerra a discussão sobre o assunto. Assim como sei também, que adotar algum tipo de abordagem, que não deixe margens a serem preenchidas pela razão, é um risco para a fé de quem tenta explicar este assunto tão controverso. O beneficio da dúvida é um dom divino, que se explica pelas leis do livre arbítrio, e este, é desejo divino que seja preservado. Não podemos arbitrar a partir do entendimento dos kamikazes, para quem não existe meio termo, ou é "tudo ou nada," esta forma de analisar as coisas, apenas cria barreiras que nos impedirão de enxergar a luz, [que é a verdade], escondida por trás da relação mórmons maçons.
      Eu, quando um mórmon maçom, me sinto confortável por saber que cinco de meus maiores líderes foram maçons, pois a simples presença deles na Maçonaria me é garantia suficiente de que estou fazendo a coisa certa. Porém, não posso deixar de ficar incomodado com o indecente e abstrato silêncio da Igreja. Somos criticados e rotulados por pessoas que nada sabem sobre nós, cujo único intento é fortalecer seus negócios religiosos, nossa primaveril relação com a Maçonaria é motivo de desordem mental para eles, e mesmo assim, não temos uma única manifestação de defesa proferida por aqueles que deveriam fazer-la. Penso que a ausência dessa manifestação não nos cai bem, a escolha pelo silêncio, é um erro que em algum momento, se é que este momento ainda não chegou, será cobrado de todos nós. Penso que ao chegar este momento, teremos que colher os amargos frutos das escolhas erradas, [...] e aí talvez seja tarde, pois este hiato já terá se tornado um germe de muitas novas dúvidas.
      Não podemos vendar nossos olhos, e escolher sobre quais assuntos desejamos falar, principalmente quando a história secular foi tão fiel em seus registros. Ficar calado para fatos históricos tão relevantes tem feito com que a história do mormonismo seja contada de forma diferente aos acontecidos. Nossos historiadores contorcem-se em estranhos malabarismos para tentar explicar nossa relação com a Maçonaria. E como conseqüência, capítulos inteiros de nossas memórias estão sendo mutilados. Sob a alegação de não ter nenhum valor doutrinário, estamos abandonando o fato de que o profeta Joseph Smith foi iniciado Maçom.
      Embora alguns não gostem, e até preferem que este fosse um fato já esquecido, a iniciação maçônica do profeta é um acontecimento incontestável, que teve e tem implicações diretas no que somos hoje. Se ele utilizou os rituais da Maçonaria para explicar, ou até mesmo construir os rituais do templo, ou se recebeu estes rituais na forma de uma revelação divina, esta é uma questão que deverá ser resolvida pela fé, deixando-nos livres para usufruir o privilégio de conhecer nossa história. Se fizermos assim, ninguém que pesquisar a história da Maçonaria vai ignorar suas contribuições às religiões, inclusive A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou será que surgirão com novas explicações na tentativa de convencer de que os mórmons pioneiros iniciados maçons, somente o foram por que lhes sobravam tempo ou não tinham nada melhor para fazer?
      Encerro minha fala compartilhando minha convicção de que as revelações não  tiveram um fim, que mesmo existindo algumas semelhanças entre os rituais da Maçonaria e os rituais do Templo, Joseph Smith foi um profeta chamado por Deus, as semelhanças não negam isto, apenas confirmam que as duas entidades um dia beberam da mesma fonte. Saber da existência das semelhanças, não deve servir de fortuitas desculpas para justificar a debilidade da fé de alguns.

[1] - (Heber C. Kimball, Manuscript History of Brigham Young, Unpublished, November 13, 1858, LDS Church Archives. Citado por Stanley B. Kimball, Heber C. Kimball: Mormon Patriarch & Pioneer).
[2] – Bíblia, Lucas 12:47
[3] – Livro de Mórmon, Morôni 7:16

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