Translator

MAÇONARIA E ATEÍSMO


Cesóstre Guimarães de Oliveira


Até certo ponto, julgo ser compreensível um não iniciado, que por não ter acesso ás nossas sigilosas informações rituais, tenha algumas dúvidas sobre o comportamento da Maçonaria em relação às religiões, e, talvez, essas dúvidas possam até ser compreendidas como a conseqüência natural das coisas. Porém, esta explicação não anula o desconforto que sinto ao ler certas literatices semeadas na internet ou em outros locais. Suponho que este meu comportamento, explique o por que de certa vez, alguém haver me rotulado de arrogante. Mas, em verdade, antes de ser arrogante, sou apenas alguém que defende aquilo que é de seu domínio de conhecimento.

Não que me julgo letrado, apenas sou convicto, que a compreensão da lógica maçônica somente é possível ao Maçom. Por essa certeza, não escondo minha desconfiança às falácias de qualquer um que esteja fora deste contexto, que mesmo de boa vontade esboce alguma tentativa de nos explicar, para mim essas tentativas não passam de meras especulações distribuídas a uma platéia disposta em acreditar sobre qualquer coisa.
Seguindo esta linha de raciocínio, apenas tencionando rebater as afirmações incoerentes, que são vomitadas pelos pseudos letrados, pessoas que não passam de plagiadores sensacionalistas da literatura de cordel, que distanciados das rimas engraçadas, em completa desarmonia com a sextilha, abandonam seus pavões misteriosos para reclamar o direito de atacar a Maçonaria em nome da defesa daquilo que chamam fé.
Estes duvidosos pensadores, na verdade não passam de macilentos santos de procissão, que trazem consigo suas auréolas feitas de arame recozido, pensando estar validando aquilo que supõem ser incríveis descobertas de contradições, nas afirmações de alguns maçons.
Perdidos numa trama de teias aracnídeas, movendo-se sorrateiramente pelas palavras bonitas, escondendo suas verdadeiras intenções, esboçando falsos sorrisos de inocência, costumam argumentar:
É verdade que a Maçonaria não é religião?
Se não é, por que um ateu não pode ser iniciado?”
Estas perguntas, nada inocentes, me foram submetidas por um leitor que dentre vários objetivos, destaco sua intenção de também agredir minha convicção religiosa. Ele veio até mim munido de pensamentos herdados [...], sabe lá, Deus, de quem?
Abusando das palavras rancorosas, confundindo malícia com amor fraterno, parcialismo com fé, tenta veemente provar que minha vida tem sido uma seqüência de equívocos, que se repetem alternadamente entre minha fé mórmon e minha convicção maçônica.
Ler suas palavras, apenas me conduziu a certeza de que ele não fez seu dever de casa. Deixou claro sua incapacidade de compreender tanto o mormonismo quanto a maçonaria, mergulhando num turvo lago de conclusões precipitadas, que apenas ratificam minha convicção de que tem dificuldades em assimilar qualquer coisa lhe requeira um pouco mais de raciocínio lógico.
Talvez motivado pela pressa em finalizar suas conclusões [que considera brilhante], ignorou que um simples ato, como o da consulta a fontes verdadeiras, poderia conduzi-lo ao caminho da compreensão, do porque a Maçonaria não aceitar ateus. Talvez se verdadeiramente houvesse o desejo de aprender, teria dedicado mais tempo a pesquisar, e assim aprenderia que “Constituição de Anderson” exige de cada candidato a manifestação da crença no Ser Supremo.
Embora tenha me perguntado, demonstrando suas desconexões de idéias, é certo que meu interlocutor sabe que “um ateu não pode ser Maçom”, ele mesmo diz isso em seu comentário. Quanto a mim, tenho aprendido que na Maçonaria o iniciado é livre para buscar seu próprio caminho ou destino espiritual. Por diversas vezes tenho repetido que “o sectarismo religioso, se algum dia existiu entre nós, a muito foi erradicado.
Eu, quando Mórmon Maçom, fico incomodado com a malfadada cultura do “denominacionalísmo”, que é fruto das tentativas de correção do cristianismo, por parte dos movimentos de reforma, que tornaram a religião um negócio lucrativo, tratado e administrado por facções, onde as diferenças são acentuadas pelas interpretações pessoais dos escritos sagrados.
Erra aquele que ver na Maçonaria uma aliada para seus desmantelos, erra aquele que confunde a Maçonaria com uma seita protestantismo, erra aquele que busca ganhar seu quinhão difamando os que julga ser seus concorrentes, mesmo que estes sejam as religiões. A Maçonaria não estar "compromissada" com nenhuma religião especifica, nosso compromisso é com a liberdade religiosa, e para tristeza dos apologistas anti maçons, independente de seus esforços, nem mesmo ela é uma religião. As portas da Maçonaria são largas o bastante para receber qualquer um que esteja livre das decisões pré fabricadas, assim como também estão abertas para os homens de bem, de todas as origens religiosas.
O zelo da Maçonaria para com o individuo, vai muito além dos limites estabelecidos pela religião. Entendemos que as religiões são importantes, e as queremos como parceiras, mas, deixamos claro que onde o individuo vai depositar sua fé, é um assunto que diz respeito unicamente a ele, e sobre isto a Maçonaria não arbitra. É privilégio do Maçom receber da Maçonaria a liberdade religiosa, de forma tal, que igual, somente nas previsões constitucionais dos países. Compreendemos que esta liberdade seja fundamental para nossa sobrevivência. Sendo assim, aquele que excluiu de sua vida a crença no Ser Supremo, não terá lugar entre nós.
Ao ouvir alguém falar sobre ateísmo me ocorre o pensamento: será que realmente ele compreende o significado desta expressão? Então, apenas para uniformizar o contexto, transcrevo o que diz o dicionário [Aurélio da Língua Portuguesa - 3ª. edição, 1ª. impressão da Editora Positivo, revista e atualizada do Aurélio Século XXI – Versão Eletrônica], onde consta o seguinte significado para ateu [do grego] átheos: “aquele que não crê em Deus ou nos deuses”.
Sendo assim, analisando o que disse o dicionário, é fácil concluir que bem poucos, têm a compreensão real do significado desta expressão, normalmente os indoutos aplicam o significado desta palavra somente ao contexto cristão, quantas vezes não temos ouvido alguém ser rotulado de ateu apenas por que não acredita no Deus cristão? [Eu creio!], Enquanto que o correto seria reconhecer como ateu, apenas aquele que demonstra completa ausência de crença em um deus, seja ele quem for.
Não posso lhes precisar, onde exatamente na história teve inicio este [crasso] erro, que rotula de ateu a qualquer um que não confessa fé no Deus cristão. Talvez seja apenas mais um fruto do conflito teológico vivido pelos primeiros cristãos na formação dos dogmas do cristianismo, neste momento apenas posso especular.
A história é rica em detalhes na descrição das influencias não cristãs infligidas aos cidadãos do vasto Império Romano. Afinal quem dentre aqueles que pesquisam a história do cristianismo, desconhece que foi graças às dimensões geográficas e políticas do Império Romano, que os precursores da cristandade puderam levar ao mundo sua religião? [vide a história completa de Paulo de Tarso e Flávio Valério Aurélio Constantino].
Quem desconhece que uma das [talvez a maior] características do Império Romano era a prática politeísta? Procedimento este, que aos olhos dos zelosos primeiros cristãos não passava de paganismo, que talvez tenha sido rotulado simplesmente ateísmo.
Por via de compreensão genérica, nós cristãos somos monoteístas, e a base de nossa fé estar lançada sob [e em alguns casos sobre] as palavras do Cristo, que, quando em vida, como homem humano, ensinou sobre tolerância e o amor fraternal. Hoje, passados dois mil anos, os radicais proliferaram como uma infecção, e não mais conformados com os discursos retóricos, transformaram em sua nova rotina, o ataque a ao livre arbítrio, rotulando [pejorativamente] de ateu qualquer um que discorde de suas convicções.
Escrever sobre questões teológicas me deixa desconfortável, temo ser mal interpretado, além deste tipo de abordagem significar abandono do espaço delimitado para as discussões do blog. Compreendam que ateísmo é um tema que se encontra nos limites das discussões que há muito abrir mão do direito de explorar, já que tanto A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias quanto a Maçonaria instruem aos seus associados, assumirem o posicionamento da neutralidade e respeito para com as decisões individuais, inclusive quando houver ausência de manifestação de fé.
Falar sobre ateísmo é abrir espaço para a discussão religiosa, pois como abordarei este tema, sem referendar o que dizem os fabricantes de rótulos, que acusam “a Maçonaria de ser incompatível com o cristianismo?”. Este pensamento reflete apenas o pensamento dos ignorantes que vêem o demônio em qualquer coisa ou lugar que lhes foge a compreensão, aquilo que não explicam pela fé, a ausência da razão atribui ao diabo. Lembremo-nos de Galileu Galilei, um gênio da astronomia que obrigado pelos “interpretadores de Deus” precisou negar sua descoberta, para não ser queimado como herege, uma vez que suas afirmações contrariavam aquilo que dizia o entendimento geral dos religiosos. Ações iguais a destes interpretadores de Deus, ratificam minha certeza de que o homem se encontra perdido em meio aos seus temores. Despreparados para compreender o porquê de sua existência, alguns atacam a tudo e a todos que se distanciam daquilo que previamente definiram como verdade absoluta.
Ainda digo mais, são estes “sábios”, que controlam os pensamentos de uma larga maioria de incautos seguidores, que por puro partidarismo, preferem ignorar que a Maçonaria não é mais uma das várias denominações religiosas que se moldam e se remodelam em velhas idéias. Preferem aceitar que a Maçonaria é a antítese do cristianismo, a terem que conviver com uma entidade que constantemente lhes faz lembrar seus desmazelos.
Ao ser interpelado sobre a existência de um deus próprio da Maçonaria, respondo que este não existe. Criar uma entidade divinizada para a Maçonaria é apenas mais uma das muitas bobagens que têm sido realizadas pelos anti maçons. Talvez quando afirmam bobagens semelhantes a esta, apenas estão aludindo aos deuses defendidos por cada Maçom em sua esfera religiosa. Os ignorantes desconhecem que a esta liberdade Jesus Cristo chamou livre arbítrio, [Pretendemos o privilégio de adorar a Deus Todo-Poderoso de acordo com os ditames de nossa própria consciência; e concedemos a todos os homens o mesmo privilégio, deixando-os adorar como, onde ou o que desejarem – Regras de Fé, 11.]. Preciso dizer algo mais?
Sobre a representatividade plural dos deuses na Maçonaria, eu, um Mórmon Maçom, digo apenas que o homem é livre para conservar suas crenças, livre para permanecer em sintonia com sua religião. Não nos importa quem é seu deus. Não discutimos se o deus “A” é mais verdadeiro que o “B”, se o “C” é mais santo que o “D”, esta discussão pertence aos zelotes e não a Maçonaria. Jamais será permitido que dentre as paredes de um templo Maçom, um irmão seja desrespeitado em sua fé, jamais será permitido que suas crenças sejam agredidas, deixamos as discussões sectárias para os intolerantes da religião.
Que ninguém ouse duvidar, mesmo após iniciado, um Maçom continuará livre para cultuar seu deus, e jamais será constrangido a deixá-lo em nome de uma nova fé, independe se estamos a falar do cristianismo, budismo, islamismo, judaísmo, etc. Dentre nós maçons o homem sempre será livre para fazer suas escolhas, se estamos errados em assim proceder... Viva o erro.

27 comentários: