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MÒRMONS MAÇONS, AB INITIO


Cesóstre Guimarães de Oliveira
cesostre@hotmail.com

Ao escrever o livro Os Construtores de Templos eu não imaginei que o mesmo me proporcionaria a oportunidade de conhecer (virtualmente) tantas pessoas. Tamanha repercussão me levou a lugares que nunca imaginei atingir, ainda hoje, fico surpreso quando fico sabendo que fui lido em vários pontos do mundo. Os e-mails que recebo diariamente tem me dado a grata satisfação de conversar com pessoas que em outro momento eu não teria oportunidade de conhecer, em função desta popularidade não almejada, tenho me dedicado de forma quase compulsiva a pesquisar nossa relação (mórmons) com a Maçonaria. Sem falsas pretensões, venho tentando esmiuçar, agindo como um observador imparcial, a história do mormonismo. A cada novo texto escrito, fica em mim a impressão de que logo aparecerá alguém com a afirmação de que desconhece esta conexão, daí o motivo d’eu sempre retornar ao tema.
Embora, exaustivamente, eu tente explicar aos meus leitores que sou um Mórmon ativo e atuante em nosso contexto, sempre aparece alguém que questiona meus motivos e alega que meus textos servem apenas de munição aos anti mórmons. Ainda existem alguns outros que insistem em questionar meus motivos, são pessoas que transcendem os limites da razão negando até mesmo os fatos históricos devidamente comprovados. Neste novo texto volto a fazer relatos sobre a interseção mórmons maçons, com destaque para os fatos ocorridos em Nauvoo. Espero que meu leitor contumaz não se surpreenda quando ao me ler note que algumas afirmações se repetem com certa constância em todos os meus textos, entenda que a repetição se explica no fato de que apenas retrato fatos verídicos, e a verdade nunca terá mais que uma versão.
Com a dramática saída de Kirtland, os mórmons que buscavam um novo local para construir suas casas e seus comércios, chegaram a pequena Vila de Commerce e ali viram uma nova oportunidade de reconstrução das suas vidas. A chegada massificada dos mórmons ao pequeno vilarejo proporcionou aos nativos a visão da maior explosão demográfica ocorrida nos EUA do Século XIX, a história registrou a transformação de um ponto esquecido dentro de um pântano em Illinois, na maior, e mais bela cidade do estado. Este surpreendente crescimento foi documentado por vários historiadores, e se explica pela chegada massificada dos conversos mórmons que imigraram da Europa, em especial da Inglaterra, onde originalmente a Maçonaria moderna deu seus primeiros passos.
Nauvoo, um lugar pantanoso e infestado de doenças, posteriormente se tornou a maior e mais próspera comunidade religiosa dos Estados Unidos da América, e surpreendente, todo este crescimento ocorreu em apenas cinco anos. É fácil encontrar os escritos onde os historiadores afirmam que em um curto espaço de tempo Nauvoo multiplicou sua população de algumas poucas dezenas para milhares almas, o que permitiu aos historiadores compará-la a Chicago, um importante entreposto comercial. Penso que por suas dimensões demográficas, logo alguém pensou em fundar uma Loja maçônica, e, é coerente com esta realidade afirmar que inclusive vários líderes da Igreja se viram tentados a participar da realização deste projeto já que em sua grande maioria os mórmons eram as pessoas mais importantes da cidade.
Era só uma questão de tempo em breve Nauvoo teria sua primeira Loja maçônica. No verão de 1841, vários Santos dos Últimos Dias que já eram maçons antes mesmo de serem mórmons, representados por Lucius N. Scovil, uma figura muito importante no cenário religioso mórmon, enviou uma petição a sua Loja de origem (Bodley nº 1, em Quincy, Illinois) para que intermediasse junto a Grande Loja de Illinois autorização para que fosse fundada a Loja de Nauvoo. Infelizmente a petição foi negada sob alegação de que ainda era cedo para tal, e recomendou que esta decisão fosse adiada para o futuro, embora não tenha estabelecido uma data para retomar a discussão.
Descontentes com a falta de apoio, menos de um ano depois, os mórmons maçons de Nauvoo agindo sem a devida autorização fundaram uma Loja. Embora esta, do ponto de vista das leis maçônicas, tenha sido uma ação ilegal, eles (os mórmons maçons) agiram apoiados pelo Grão Mestre de Illinois, Abraham Jonas (um Maçom Judeu) que concedeu uma dispensa “especial” para que a Loja fosse fundada. Foi Abraham Jonas que também iniciou na Maçonaria o profeta Joseph Smith e seu primeiro conselheiro, Sidney Rigdon, inclusive acelerando sua (de ambos) exaltação ao terceiro grau, tendo "dispensado” o período de espera considerado normal para uma mudança de grau. Aparentemente o interesse de Jonas no favorecimento dos mórmons no tocante a esta iniciativa deve-se ao fato d’ele ter interesses políticos ligados a crescente população Mórmon, ele via nos eleitores mórmons possíveis colaboradores a sua ambição política. Quem fez o dever de casa, e estudou os manuais de aula deve lembrar que a antipatia dos missourianos em relação aos mórmons deveu-se em grande parte às idéias abolicionistas dos líderes da Igreja, já que o Missouri era declaradamente um estado escravagista.
Embora o apoio de Abraham Jonas possa tê-lo deixado em alta junto aos mórmons, a decisão final do estabelecimento da Loja coube ao profeta Joseph Smith. Penso que o profeta viu nesta associação (do mormonismo com a maçonaria) alguns benefícios para os membros da Igreja, ao pensar assim, lembro que os maçons eram pessoas socialmente bem relacionadas, alguns eram governadores de estado, prefeitos, delegados, juízes e outras figuras de destaque no cenário nacional americano, entendo ser um pensamento coerente com a realidade afirmar que o profeta viu nesta organização a oportunidade de amizade e apoio que os mórmons tanto precisavam. Infelizmente, em vez de ter este apoio, a criação da Loja de Nauvoo apenas produziu mais atrito. Logo, aqueles que não simpatizavam com a causa mórmon, inclusive alguns maçons, passaram a questionar a doutrina ensinada pelo profeta Joseph Smith, a alegação comum a todos era de que Joseph havia “descaradamente” (sic) roubado as idéias dos rituais maçônicos e os aplicara na criação de seus próprios rituais. Costumo dizer aos que me apresentam este absurdo a seguinte afirmação: “Se esta injuria fosse verdadeira, se houvesse procedência neste despautério, com certeza, os contemporâneos do profeta, bem como nós atuais mórmons maçons não seriamos enganados ao ponto de acreditar que as ordenanças do templo tiveram suas origens na inspiração divina”. Somente uns poucos apóstatas, que abandonaram ou foram expulsos da Igreja levantaram suspeitas com acusações na maioria das vezes infantis contra Joseph, mas aqueles que o conheciam bem, aqueles que conviviam com ele em sua intimidade fraternal sabiam que "o Espírito Santo realmente desceu sobre ele, de modo que ele pudesse realizar plenamente o que Deus lhe ordenara fazer”.
Ao ser formada a Loja de Nauvoo, a Loja Bodley nº 1 protestou junto a Grande Loja de Illinois, alegando que várias irregularidades vinham sendo cometidas desde sua fundação, este protesto formal forçou a Grande Loja de Illinois decretar a suspensão temporária das atividades da Loja Mórmon, além de enviar uma comissão de sindicância para investigar seus registros, porém, os sindicantes concluíram que embora, aproximadamente, três centenas de Santos dos Últimos Dias tinham sido iniciados durante a breve existência da loja, nenhuma irregularidade que justificasse o fechamento definitivo dela foi constatado, diante do exposto a Grande Loja autorizou a Loja de Nauvoo reabrir suas portas, além de conceder autorização definitiva de funcionamento a esta e mais outras Lojas que funcionavam de forma ilegal (sem autorização da Grande Loja). Eventualmente, cerca de 1.500 homens Santos dos Últimos Dias ingressaram na Maçonaria, inclusive toda a liderança maior da Igreja.
Conforme escrevi em parágrafos anteriores, algumas pessoas abandonaram ou foram expulsos da Igreja, e dentre estes destaco John C. Bennett que após ser excomungado passou a acusar o profeta Joseph Smith de haver plagiado os rituais secretos da maçonaria. Bennett foi excomungado da Igreja por haver cometido adultério, e causou grande sofrimento pessoal ao Profeta Joseph.
A quem possa interessar, eu, um Mórmon Maçom declaro que Joseph Smith foi um verdadeiro profeta de Deus, centenas de milhares de pessoas em todo o mundo a cada ano entram na Igreja através das águas do batismo para a remissão de seus pecados, as ordenanças do Templo lhes foram concedidas por revelação divina, disto não tenho dúvidas. Posso até a aceitar que de alguma forma ele tenha sido influenciado pelo meio, mas esta influencia em nada alterou aquilo que recebeu de Deus, apenas facilitou sua compreensão das coisas que deveriam ser restauradas.
Entendo que as influências externas que o profeta Joseph Smith esteve exposto foram importantes fatores na formação de sua percepção como profeta de Deus. Da mesma forma entendo que as influencias externas foram importante para o Senhor Jesus Cristo na preparação de sua mensagem. Jean Paul Sartre fazendo uma leitura existencialista do marxismo disse: “... O homem é, em sua essência, produto do meio em que vive, que é construído a partir de suas relações sociais...”, é lógico que entendo que existe toda uma discussão por trás das idéias de Karl Max, mas não tenciono, nem discutirei aqui o marxismo, fazer isto seria uma descaracterização de meu propósito, apenas o citei para que meu leitor entenda a que influencias externas me refiro.
Joseph Smith era um homem puro e completamente inexperiente no campo da maldade, não havia malícia nele, este admirável exemplar de ser humano era uma folha de papel em branco sobre a qual o Senhor escreveu, sua doutrina. Embora existam algumas semelhanças superficiais entre os dois rituais, sei que o diferencial é muito superior ás semelhança. Incansavelmente nós maçons temos ao longo dos séculos, proclamado uma mensagem a um mundo que insiste em se manter surdo, repetidas vezes temos dito: "A Maçonaria não é uma religião nem pretende ser um substituto para elas". Não existe um deus Maçônico, nem uma divindade específica a ser adorada pelos maçons, cada pessoa arbitra sobre suas crenças, a maçonaria não interfere na relação entre o individuo e seu deus. O que temos dito é que "a Maçonaria regular exige que seus candidatos tenham a crença em um Ser Supremo. Mas a interpretação do termo está sujeito à consciência do candidato. Isto significa que o homem é livre para escolher sua religião dentre uma vasta gama de crenças, onde incluo (mas não limito) o cristianismo, o judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo, etc. Se este é um procedimento que deva ser considerado errado, ou que deve ser condenado, penso no que podemos dizer daquele que afirmou: “Pretendemos o privilégio de adorar a Deus, Todo Poderoso, de acordo com os ditames da nossa consciência e concedemos a todos os homens o mesmo privilégio, deixando-os adorar como, onde, ou o que quiserem” (11ª Regra de Fé).

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